Da minha solidao, fizeste uma multidao.
Das minhas carências, fizeste com que nada me faltasse.
E depois fugiste.
...
Tantas tretas que contaste. Maravilhosas mentiras que me levaram tao longe. Como nao te agradecer?
Es assim mesmo, de nada serve pensar que seria de outra maneira.
Leste nos mais profundos dos meus pensamentos para me dar o que te parecia faltar-me.
E habituei-me a tanto mimo teu.
E depois fugiste.
...
Quanto amor aqui houve. Nao daquele que dura, mas a essência daquele que é o mais precioso. Que dura tao pouco porque depois se estraga. Subimos aos cimos, levaste-me pela mao, cada dia. Com uma atençao que nunca tinha conhecido.
Fizeste de mim princesa e foi tao gostoso.
E depois fugiste
...
De todas as mentiras que disseste esqueceste uma verdade que nunca pudeste enunciar. Amaste-me como te amei...
È depois, fugiste!
Dà-me mais dessas tuas mentiras que levam às estrelas!
Desta vez, prometo, saberei que mentes e é nisso que acredito.
Nas tuas deliciosas mentiras.
| Hà uma luz por tràs da escuridao |
Ai quem me dera uma feliz mentira que fosse uma verdade para mim!
Tu julgas que eu não sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?
Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo
O bom sonho da feroz realidade...
Não palpita d´amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!
Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo do teu peito de granito...
Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!
Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"
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