mardi 7 mai 2013

MEUS AIS


Não deverias desprezar-me como fazes.
Não mereço, é injusto. Porque te dei o que querias, jà não presto, jà não sou.
Nunca fui de facto. Inventei-te e vieste dar o que eu te daria que querias de volta.
Não conto.
Não existo.
Não me deixes assim, com esta dor que é sò minha porque me a deste tu e jà não me a queres tirar.
Não me deixes assim perdida e tão sò que sò tu soubeste o que devia ser dado.
Não me tires tudo... sem ti, não me fica nada!

Quando a escuridão quer devorar a luz

Perdoa-me, visão dos meus amores,
Se a ti ergui meus olhos suspirando!…
Se eu pensava num beijo desmaiando
Gozar contigo uma estação de flores!
De minhas faces os mortais palores,
Minha febre noturna delirando,
Meus ais, meus tristes ais vão revelando
Que peno e morro de amorosas dores…
Morro, morro por ti! na minha aurora
A dor do coração, a dor mais forte,
A dor de um desengano me devora…
Sem que última esperança me conforte,
Eu – que outrora vivia! – eu sinto agora
Morte no coração, nos olhos morte!
Álvares de Azevedo

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